Já ouviu falar de pareidolia? É enxergar rostos em coisas inanimadas, como a
feição de um velho no tronco de uma árvore. Requer alguma imaginação e
sensibilidade porque a verdade é que nem todo mundo vislumbra feições
por aí. Além do mais, não vemos apenas um velho, mas um velho triste, ou
uma bruxa irritada. Os rostos quase sempre vêm acompanhados de emoção,
segundo pesquisadores que estudam o fenômeno.

E a incapacidade de enxergar pessoas e emoções por trás de corpos mortos,
como chama?


A escritora Patrícia Capella transformou a pareidolia numa brincadeira em
seu novo livro infantil, “Que bicho você vê?” (Editora Ambayba). Com
fotografias de Sergio Zalis tiradas dentro da floresta, Patrícia teceu uma
história que não subestima a imaginação das crianças nem a criatividade dos
adultos que se lançarem à leitura. Ela fez a rara opção de não oferecer
respostas prontas, uma decisão acertada num livro que pretende,
justamente, alargar o horizonte da imaginação e expandir a capacidade de
interpretação das crianças.

Quando esse livro chegou, eu ainda digeria as notícias do massacre
promovido pelo governo do Rio de Janeiro nos Complexos da Penha e do
Alemão. Mais de 120 mortos e subindo. Mas, para o governador do Estado,
Claudio Castro, o massacre foi uma “operação” bem-sucedida contra a facção
criminosa do Comando Vermelho, e deixou “só” quatro vítimas, disse,
referindo-se aos policiais mortos. É uma afirmação que subestima a nossa
inteligência.

Na contracapa do livro infantil, Patrícia Capella deixa clara sua intenção. “Em
tempos de olhares presos às telas, este é um convite para levantar a cabeça e
ver o que está ao redor.” E lá estão, nas fotografias, imagens que ganham
muitas camadas no mundo do faz de conta. Tronco que parece girafa, galhos
que mastigam alimentos. O convite aberto instiga e encanta.

Os “marginais”, palavra das autoridades do Rio, foram encurralados na mata
por forças policiais. “Marginais” é um termo que pretende encerrar aquilo que
não está encerrado. Supõe que julgamentos são dispensáveis e que a
execução é aceitável. Enquanto eu escrevia, um helicóptero sobrevoava meu
bairro. Eu ouvia sirenes ao longe. Moradores de um lugar mais distante
retiravam corpos da floresta.

“A gente conversava muito. O Sergio (o fotógrafo) dizia ‘é óbvio’ que é um
gorila, e fazia traços me mostrando o gorila. Daí eu pensava que, se ele não
tivesse feito aquilo, eu poderia ter feito um esforço maior e visto outra coisa”,
disse Patrícia. Então ela decidiu deixar a criança livre, porque, se ela vir outra
coisa que não um bicho, “tudo bem também”.

Quando uma mãe pede desesperadamente que prendam seu filho, mas não
o matem, o que você vê? O que você ouve?

Margaret Garner decidiu matar seus filhos ainda crianças antes que eles
fossem escravizados. Essa história – relatada por um pastor num artigo
publicado em fevereiro de 1856 – inspirou Toni Morrison na escrita de “Amada”, livro adaptado para o cinema, com Oprah Winfrey, em 1998.

Quando os caçadores de escravos chegaram em sua casa, Margaret Garner
pensou que só a morte poderia livrar os filhos do sofrimento que viveu. O
assunto foi abordado por Morrison numa série de palestras feitas na
Universidade de Harvard e reunidas no livro “A origem dos outros”
(Companhia das Letras). Morrison explicou que seu principal interesse, ao
escrever “Amada” (1987), era “compreender a incapacidade da sogra de
condenar a nora por assassinato” e a “serenidade” de Margaret ao se lançar
num ato de tanto desespero.

Escrevo também para tentar compreender a incapacidade de tanta gente
perceber que o Estado não pode ser um agente terrorista, nem agir à revelia
da Justiça. Pior ainda, não pode o Estado, com tanta informação disponível,
optar por um caminho que obviamente não vai resolver o problema coletivo.
Se pena de morte fosse solução para o crime, os Estados Unidos não teriam a
maior população carcerária do mundo, para dizer o mínimo.

Toni Morrison explica, na palestra, por que optou por um tom de mais
esperança na ficção, ao contrário da perturbadora história real que a inspirou.
“Minha mãe escravizada é incentivada a enfim pensar que pode ser um ser
humano digno de valor apesar do que aconteceu com ela e sua filha”, disse
Morrison. “A ficção narrativa proporciona uma selva controlada, uma
oportunidade de ser e se tornar o outro.”
E isso só é possível com “reflexão, curiosidade e participação ativa”, os
mesmos ingredientes que transformam galhos em bichos numa história
infantil, e que poderiam inspirar políticas públicas mais inteligentes e eficazes
para que a história do nosso tempo possa ser reescrita com mais esperança.