Sabe quando a gente vê um rosto em alguma “coisa”, “coisa” mesmo, algo inanimado? Frente de carro, uma parede antiga, as tomadas antigas, até fachadas de casas etc. Às vezes, nos esquecemos, mas isso tem um nome: pareidolia - para as crianças, tão divertido de falar quanto de viver. Pareidolia é um fenômeno psicológico, mas estudos apontam que pessoas com muita imaginação e criatividade conseguem ver mais que outras. Será?
Capa do livro Que Bicho Você Vê, de Sergio Zalis e Patricia Capella — Foto: Divulgação
Este é o convite dos autores de Que Bicho Você Vê? (R$ 70), lançado pela editora Ambayba recentemente. A escritora Patricia Capella e o fotógrafo Sergio Zalis ficaram amigos por causa do livro: amigos em comum apresentaram Patricia a Sergio, já que, como apaixonado por fotografar a natureza, isso daria um bom convite às crianças.
Patricia é autora, editora e estudiosa da escrita, da literatura, especialmente as voltadas para as infâncias. A partir das imagens de Sergio, criou uma história de um avô que passeia com o neto pela floresta, brincando de identificar animais em troncos de árvores. O livro mostra o diálogo entre os dois, enquanto passeamos com eles pelas fotos enormes na página, desafiando o olhar de leitoras e leitores de todas as idades. Vou dar um exemplo. Observe a imagem a seguir:

Afinal, que bicho você vê aqui? — Foto: Reprodução
E aí você viu o animal, aquele de boca grande? Dá até um frio na barriga, não? Pois esse é o jogo: será que o que você vê é o que eu vejo? Será que o que eu vejo é o que os autores veem? Soube que até entre eles houve certas dúvidas... é irresistível! E aposto que tanto crianças quanto adultos nunca mais olharão a floresta como antes.
Mas tem um desejo a mais de Sergio, que acaba de se tornar avô e voltou a refletir sobre o assunto: “A fotografia é raramente apresentada às crianças como a linguagem artística”, diz. E ele tem razão: temos bem poucos livros destinados às crianças no Brasil assim.

Sergio Zalis e Patricia Capella, autores do livro infantil Que Bicho Você Vê? — Foto: Divulgação
Confira trechos de nossa conversa exclusiva com os autores, que falam com paixão sobre essa floresta de imagens inventadas.
CRESCER: Eu fico olhando o livro toda a hora, mexendo nele, brincando de achar algum bicho novo. Vocês me contaram que um amigo em comum [Jaime] colocou vocês dois numa mesma reunião, pois a ideia era apresentar à Patrícia uma obra estrangeira para ela trazer ao Brasil.
Patricia Capella: Foi totalmente por acaso, Cris, que a gente se conheceu! [risos]. Era para fazer um outro livro.
Sergio Zalis: Ele queria alguém que conhecesse o mercado editorial infantil, eu não tinha noção.
Patricia Capella: Eu falei sobre vender os direitos e tal. E aí, num intervalo, alguma coisa aconteceu que o Jaime foi atender um telefone. E saiu. E a gente ficou conversando. Sérgio me falou que era fotógrafo. E lembrei que, na última Feira de Bolonha, o que ganhou o prêmio de melhor livro infantil era um livro de fotografia, um livro coreano. [Patrícia se refere ao livro "If You Want to Eat a Red Apple", de 2024, de dois autores sul-coreanos - Jin Joo e Lee Ga-hee – que têm como base fotografias, o que é bem raro em livros infantis, e venceu a premiação na Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália) - a mais importante feira de livros infantis no mundo]. Comentei isso e, na mesma hora, ele foi pesquisar sobre o livro. Já achou onde estava vendendo online. [risos]
CRESCER: E o Sergio foi atrás do livro!
Patricia Capella: Ele foi correr atrás do livro e aí falou assim: "Olha, eu tenho um material, quer olhar?". Já com a ideia das fotos para o seu neto, não foi, Sergio?
Sergio Zallis: É. Aí depois eu completei mais. Quando você já tinha topado, comecei a fazer mais fotos.
CRESCER: Então você é o personagem inspirador da história do livro! De passear com o neto com a câmera fotográfica na mão...
Patricia Capella: Ele é o vovô! [risos]
Sergio Zalis: Eu sou o vovô. [risos]. Na verdade, virei avô faz pouco tempo e isso mexeu muito comigo. Mas a história é a seguinte: eu fiz uma exposição, um projeto grande, sobre natureza. Eu já tinha saído totalmente do meio das celebridades [Sergio trabalhou no início da revista Caras e depois fez parte da equipe da Contigo!, da Editora Abril] e trabalhei na Globo por nove anos, também, cuidando da área de fotografia da televisão. Fui fazer este projeto, me mudei para a Holanda, estudei e criei a exposição Dicotomia, com fotos do Rio de Janeiro e de Haia, onde eu moro. Então comecei a observar um monte de coisas na natureza que eu não observava antes.
CRESCER: Então o convite que você faz para gente, você passou por isso primeiro?
Sergio Zalis: Sim, sim, sem dúvida. Quando estudei fotografia, tinha exercícios assim... Um dos primeiros era fotografar coisas de duas dimensões - por exemplo, parede e chão. Era um exercício de abstrato. Aquilo ficou guardadinho. Quando eu fiz esse projeto de dicotomia, comecei a observar isso. Eu fotografava com celular. Depois eu voltava e fazia com a câmera profissional, com luzes especiais. Mas, além de observar o projeto Dicotomia, comecei a ver os animais.
CRESCER: E o que você pensou em fazer?
Patricia Capella: Aí eu entrei como coautora. Mas a semente do livro e o foco dele é a foto. É um livro da arte da fotografia para crianças. Quis levar isso para o projeto gráfico também, que era fazer uma coisa que chamasse menos a atenção do que a foto. O projeto gráfico está elegante.

Páginas do livro Que Bicho Você Vê? — Foto: Divulgação
CRESCER: É a foto que conduz o texto e não o contrário.
Patricia Capella: E o texto deixa para o leitor a possibilidade de discordar, de criticar, de ver por outro ângulo.
Sergio Zalis: É muito engraçado que a gente foi numa leitura há algumas semanas [o encontro foi na Livraria Alento, no Rio de Janeiro]. Gente, as crianças viajaram! Começaram a achar coisas que nem tinham passado na minha cabeça. Acho esse papel essencial na formação do olhar. E a fotografia tem essa coisa que é a realidade. Não é desenho. É um mundo real. Então como as crianças podem ver o mundo real de um jeito diferente, de um jeito artístico, criativo. De repente, agora um monte de amigos meus me mandam fotos, de árvores. E aí, o que você está vendo? [risos]. É um exercício para ver o invisível.
CRESCER: E parece que a gente está com um pedaço da floresta nas mãos, vemos a textura.
Patricia Capella: É legal você falar isso, Cris, porque eu chamei uma mediadora para fazer a contação, a Lívia [Bertges, da Aurora da Leitura]. Tinha muitas crianças pequenas. Sabe o que ela fez? Ela coletou cascos de árvores e distribuiu para as crianças no final!
Sergio Zalis: Os pais se divertem também, porque ficam procurando. Vai haver uma discussão. Hoje em dia, a velocidade da imagem, da mudança da imagem do Instagram... está se criando uma linguagem muito rápida. Esse trabalho leva à pausa. Tem tudo a ver com sublime.
-> O próximo lançamento do livro será em São Paulo, na Livraria da Vila do Shopping JK Iguatemi, dia 28 de novembro, às 18h30, com a presença dos autore.

